Gerald se virou assim que ouviu a voz da garota.
Viu uma menina alta e bonita, usando uma calça jeans justa e um par de saltos altos, parada atrás dele.
Ela estava com as mãos na cintura, olhando pra Gerald com um olhar de puro desprezo.
— “Gerald, você acha mesmo certo depender do auxílio estudantil da associação de estudantes, sendo que conseguiu comprar um produto de luxo de cinquenta e cinco mil dólares? Deixa eu te dizer uma coisa! No próximo ano, você não vai mais receber auxílio da nossa parte!” — disse ela friamente.
— “Whitney, o Gerald recebeu esse dinheiro como recompensa por salvar a vida de uma menina! Os pais dela deram um cartão de compras como agradecimento. Por que você quer cortar o auxílio dele? Só porque é presidente da associação de estudantes, acha que pode tudo?”
A presidente, Whitney, olhou pra Harper com uma expressão gelada, sem responder.
— “E o que você tem a ver com isso? Não sabe que o único motivo do Gerald ter recebido o auxílio foi porque a associação de estudantes batalhou por ele? A gente ajudou porque ele precisava! Mas agora ele vai lá e compra uma bolsa Hermès de cinquenta e cinco mil dólares! Você não ouviu os boatos que estão rolando pela universidade inteira hoje?”
— “Ele envergonhou a associação com essa atitude! Só isso já é motivo suficiente pra gente cortar o auxílio!”
Whitney encarava Gerald com repulsa. Todo mundo obviamente sabia da bolsa Hermès por causa da live da Felicity na noite anterior.
Além disso, Whitney era a presidente da associação de estudantes e uma das favoritas do reitor.
Vinda de uma família rica, era competente e sabia resolver situações difíceis. Por ser presidente, ela tinha contato com todos os departamentos da universidade.
Professores e coordenadores de várias áreas também a conheciam muito bem.
Ela tinha o perfil clássico de liderança e por isso não dava moral pra gente sem dinheiro ou influência, como o Gerald.
Mas respeitava o fato dele sempre ter sido obediente e fazer tudo que ela mandava. Era por isso que ela ajudava ele a conseguir o auxílio todo ano.
Outros alunos com dificuldades financeiras se recusavam a agir como serviçais pra Whitney em troca do benefício.
E era por isso que Harper não ia com a cara dela.
— “Gerald, e aí? O que você vai fazer sobre isso?” — Whitney perguntou, lançando um olhar rápido pra ele.
Gerald franziu a testa. Pra falar a real, ele nem precisava mais daquele auxílio da associação.
Mas apesar do desprezo de Whitney, tudo que ele tinha recebido até agora tinha sido conquistado com esforço.
— “O que você quer de mim?” — perguntou ele.
— “Beleza. Já que perguntou, vou te dizer. Você vai continuar recebendo o auxílio se fizer um favor pra mim. Se fizer bem feito, eu perdoo o ‘estrago’ que você causou na imagem da associação!”
Whitney se referia às críticas que Gerald estava recebendo por usar o cartão presente pra comprar uma bolsa cara.
Por dentro, ela estava cheia de raiva só de pensar nisso.
Como que aquele “pé-rapado” teve tanta sorte? Como alguém dá de presente um Cartão Supremo Global de Compras pra ele?
E ainda por cima, o Gerald deu uma bolsa de cinquenta e cinco mil dólares pra outra pessoa de presente de aniversário!
Se fosse pra ela, ela estaria radiante.
Mas ele nem pensou nela! Por isso, Whitney resolveu dar o troco, ameaçando tirar o auxílio.
Ridículo!
— “O que você quer que eu faça?” — perguntou Gerald, mantendo a calma.
— “Simples. A associação vai organizar um evento importante na próxima semana, e a gente precisa de alguém pra limpar o local. Quero que você limpe o auditório! Se fizer isso, eu continuo te ajudando a manter o auxílio no próximo ano. E não diga que eu não tô te dando uma chance, viu Gerald? Hoje, inclusive, pode faltar aula. Já deixei até uma carta pronta pra você!”
Whitney disse isso enquanto jogava a carta falsa na direção dele e saiu andando com seus saltos.
— “Caraca! Que mulher abusada!” — esbravejou Harper, na hora.
O Benjamin, outro colega de quarto do Gerald, também ficou revoltado.
— “Relaxa, Gerald. Acho que você não devia limpar esse auditório. Sabe o tamanho desse lugar? Como você vai dar conta sozinho? Bora pra aula agora.”
Ele deu um tapinha no ombro de Gerald.
— “Mas e o auxílio do Gerald?” — perguntaram os outros, preocupados.
Harper pensou um pouco, e então bateu as mãos:
— “Tá de boa! Por que a gente não vai com o Gerald e ajuda a limpar o lugar? Com todo mundo junto, a gente termina rapidinho.”
— “Boa! Acho uma ótima ideia!”
Todos concordaram com a cabeça.
O coração de Gerald ficou quentinho.
Mesmo tendo passado por tantas humilhações nos últimos três anos, ele ainda era otimista.
Porque no meio disso tudo, ele encontrou amigos de verdade. Irmãos que se importavam de verdade com ele.
Mas ele nunca permitiria que eles fossem punidos junto com ele.
Pra ser sincero, Gerald queria contar que ele, na verdade, era um filho de milionário.
Mas sentia que aquela amizade e o carinho que eles demonstravam eram sua verdadeira riqueza — e ele não queria perder isso.
Pensando melhor, decidiu manter sua identidade em segredo.
Então, Gerald foi sozinho pro auditório.
Assim que chegou, Whitney começou a dar bronca nele.
A galera que ensaiava pro evento caiu na risada com as palavras dela.
Whitney tinha pedido pra equipe da associação ensaiar no auditório.
— “Cuidado com o que fala, presidente! Vai que o Gerald seja, na real, um cara milionário disfarçado, e jogue dinheiro na sua cara!”
Os caras ali estavam olhando pro Gerald com uma mistura de inveja e surpresa.
Pensavam: “Se eu tivesse 55 mil, dava era uma bolsa dessas pra Whitney, em vez dele!”
Gerald pegou uma vassoura e começou a limpar a bagunça deixada no local.
Foi então que um cara alto e forte empurrou ele com força.
Claro que Gerald sabia quem era: Victor Wright, vice-presidente da associação e capitão do time de basquete.
Um dos responsáveis por grande parte da humilhação que Gerald viveu na faculdade.
— “Victor! O que tá fazendo aqui?” — Whitney perguntou, surpresa e animada.
Victor era o tipo de cara que Whitney curtia: alto, bonito, rico e bom de bola.
O tipo de cara que fazia todas as garotas suspirarem.
Inclusive, várias meninas da equipe de teatro ficaram coradas só de olhar pra ele.
— “Ah, saí cedo hoje pra mexer no meu carro.” — respondeu ele, tomando um gole de água.
— “Carro? Como assim? Você comprou um carro, Victor?” — perguntou uma das garotas, espantada.
— “Hahaha! Comprei sim, um Audi A6. Só pra me divertir mesmo.” — disse ele, se exibindo.
— “Uaaaau!”
As meninas ficaram encantadas.
Até Whitney ficou balançada e perguntou:
— “É nacional ou importado?”
Na real, tanto fazia. Um Audi A6 já era um carrão.
— “Importado! Um amigo do meu pai conseguiu com desconto, cem mil a menos! Hahaha!” — respondeu Victor, sorrindo.
Whitney fez uma cara estranha depois disso.
Enquanto isso, Gerald, que tava varrendo, não conseguiu deixar de ouvir a conversa sobre carros.
Era o sonho dele ter um carro.
Não ligava pra marca, só queria ter um!
E isso porque no passado ele jamais teria condições de comprar um.
Por isso ficou bem curioso com a conversa.
Acabou ficando distraído…
Nem percebeu que estava varrendo os pés de uma menina que estava sentada na arquibancada.
— “Ahhh!”
Gerald só se deu conta quando ela gritou bem alto.