Eram nove horas da noite no dormitório masculino do campus universitário.
— Gerald, desce lá no quarto 101, no primeiro andar, e traz meu notebook aqui pra cima!
Um cara loiro, do dormitório ao lado, abriu a porta do quarto do Gerald, jogou um dólar no chão e foi embora.
— Ah, e aproveita e traz uma garrafa de água mineral do mercadinho lá embaixo também!
O loiro virou e jogou mais três dólares no chão — dois pra pagar a água e mais um pela entrega.
— Ei, loirinho! Por que vocês do seu dormitório sempre fazem o Gerald correr pra cima e pra baixo pra vocês? Vocês não acham que já tão passando dos limites?
Os colegas de quarto do Gerald não aguentavam mais ver aquela situação e questionaram com frieza.
— Hahaha! Vocês ainda não entenderam o Gerald? Dá um dólar pra ele que ele faz qualquer coisa. Até comer merda se pedir! — respondeu o loirinho com sarcasmo, rindo alto e saindo em seguida.
Gerald ficou vermelho de vergonha, fingiu que não ouviu nada, abaixou, pegou os dólares no chão e pensou:
“Com isso eu ganho dois dólares, já dá pra comprar três pãezinhos no vapor e um pacote de tempero! Assim não fico com fome.”
— Gerald… não vai! Se você não tiver dinheiro, a gente te empresta. Nem precisa pagar depois! — disse o chefe do dormitório, com pena.
— Valeu, mas tá tudo bem… — respondeu Gerald com um sorriso fraco, antes de sair do quarto.
Todos olharam pra ele saindo, balançando a cabeça com tristeza.
No fundo, Gerald odiava fazer recados pros outros. Ele só queria curtir a vida na faculdade como todo mundo.
Seria perfeito se ele pudesse estudar em paz, sem se preocupar com dinheiro.
Mas… ele era realmente pobre.
Apesar dos seus colegas serem gente boa com ele, Gerald não queria que ninguém sentisse pena. Tinha medo de que um dia cansassem dele.
Além dos colegas de quarto, ele não tinha mais amigos na faculdade.
— Gerald, ouvi dizer que o loiro te mandou lá pra baixo, né?
Um cara bem arrumado saiu do dormitório ao lado. Era Danny Xanders, o chefe do quarto do loiro — bonito, rico e o crush de metade das meninas da faculdade.
Mas ele sempre olhava pro Gerald com desprezo.
Gerald nem entendia por que Danny falava com ele.
— É, tô indo descer — respondeu só com um aceno.
Danny sorriu e entregou uma caixa cheia de coisas:
— Um amigo meu vai estar esperando hoje no bosque leste. Entrega isso pra ele. Aqui tem dez dólares pra você.
Danny era o tipo galinha da faculdade. Sempre chamava meninas diferentes pra encontros no bosque.
E os amigos dele faziam o mesmo.
Gerald nem questionou, já tava acostumado a fazer esse tipo de favor. Pegou a caixa e o dinheiro, desceu as escadas. Quando virou de costas, ainda ouviu uma risadinha debochada do Danny.
Ele foi buscar o notebook e a água, e depois foi em direção ao bosque pra entregar a caixa.
O bosque era conhecido por ser o point dos casais à noite.
Assim que chegou, viu um casal conversando e rindo. Mas quando olhou direito os rostos deles à luz da lua… ficou em choque.
Era a Xavia!
Os olhos dele encheram de lágrimas. A caixa e os itens caíram no chão.
Xavia era sua ex. Fazia só três dias que eles tinham terminado. Ela dizia que precisava de um tempo sozinha…
Mas agora tava ali, com outro cara?
Os dois perceberam ele e mudaram a expressão na hora.
— Gerald? O que você tá fazendo aqui? Não entenda errado. Eu tô com o Yuri só porque…
Xavia se desesperou, morrendo de vergonha. Baixou a cabeça, sem saber onde enfiar a cara.
Yuri Lowell — um riquinho metido e amigo do Danny — olhou a caixa no chão e caiu na risada.
— Caramba! O Danny sabe brincar, hein? Pedi pra ele mandar alguém entregar essa caixa e ele realmente mandou você. Isso tá sensacional! — riu alto.
Gerald fechou os punhos de raiva. Agora tava claro: tudo foi armado. E talvez Danny até tivesse alguma coisa a ver com o fim do namoro.
Senão, como explicar Xavia estar com Yuri só três dias depois?
— Xavia, tudo bem não gostar mais de mim. Mas precisava cair nos braços de um cara como esse? Sabe quantas namoradas ele já teve?
Ele falava com dor, porque ele realmente amava aquela garota.
Xavia se irritou:
— Gerald, quem você pensa que é pra me dizer o que eu posso ou não fazer? Acabou entre nós! Eu fico com quem eu quiser!
Ela tava furiosa. Olhou pra ele com raiva:
— Veio aqui pra me dar nojo? Some da minha frente!
E deu um tapa na cara de Gerald.
Depois virou pro Yuri e disse:
— Yuri, perdi totalmente o clima. Talvez numa próxima…
Gerald não sabia nem como saiu do bosque. Tava com a cabeça vazia, em transe.
Enquanto isso, Danny tava morrendo de rir no dormitório.
— Hahaha! E aí, Gerald, o que achou da surpresa no bosque? — perguntou o loiro, tirando sarro.
Gerald tava tremendo de raiva. Os olhos vermelhos. Ele queria bater no Danny. Queria acabar com ele ali mesmo.
Danny nem se abalou:
— Relaxa. Não tenho medo de você.
E ainda completou:
— Sabia que o Yuri conseguiu sair com a Xavia com menos de meia hora de papo? Enquanto você passou mais de um ano correndo atrás dela! Eu fiz isso por você!
No fim das contas, Gerald ainda apanhou dos amigos do Danny.
De volta ao quarto, Gerald chorava baixinho, com o rosto escondido no travesseiro.
“Só porque eu sou pobre, acham que eu não tenho sentimentos? Será que nem como ser humano me enxergam?”
Chorou tanto que acabou dormindo.
E por mais estranho que pareça, aquela foi uma das noites mais tranquilas que ele teve.
No dia seguinte, acordou e viu que estava sozinho no quarto. O pessoal provavelmente deixou ele dormir, achando melhor não ir pra aula depois do que aconteceu.
Quando pegou o celular, viu várias chamadas perdidas e mensagens — todas de números internacionais.
Uma delas dizia que haviam transferido dinheiro pra sua conta.
[Banco Daxtonville] 19 anos. Saldo atual da sua conta terminada em 107: US$ 1.500.000,00.
Gerald ficou em choque.
Um milhão e meio?!
Correu pra ligar no banco e confirmar. E sim, o valor era real.
Logo em seguida, recebeu outra ligação internacional.
— Gerald, recebeu o dinheiro que eu te mandei? É a sua irmã mais velha!
— Irmã? Que história é essa? Vocês não estavam ralando fora do país pra juntar grana? De onde veio esse dinheiro todo?
Gerald tava pasmo.
— Então… o papai queria manter isso em segredo mais um tempo, mas eu não aguentei. Eu sei o quanto você vem sofrendo. A verdade é que… nossa família é muito rica. Tipo, MUITO mesmo! A família Crawford tem negócios espalhados pelo mundo inteiro. A gente é dono de 80% das minas de ouro, petróleo e minerais da África!
Ela ainda completou:
— Isso sem contar nossas empresas em Daxtonville e em outros países. Gerald, você é um herdeiro bilionário.
Gerald quase engasgou. Se não fosse o dinheiro na conta, ele juraria que era zoeira.
— Eu sei que é difícil acreditar, mas com o tempo você vai se acostumar. Eu mesma levei um tempo pra me adaptar ao estilo de vida de rico. Ah, mandei uma encomenda pra você por entrega expressa. Deve chegar hoje. E relaxa, você nunca mais vai precisar se preocupar com dinheiro!
— Eu nem sei quanto custa as coisas hoje em Daxtonville, mas usa esse milhão e meio por enquanto. Te ligo de novo no mês que vem!
Gerald desligou sem acreditar.
Tinha vivido a vida inteira como pobre…
Mas agora descobria que era um filho de bilionário?